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A Terceira onda da Revolução Americana, segundo Petras

Por Jasper Lopes

Sub-Comandante Marcos/Galeano, líder dos insurgentes  zapatistas, no sul do México

Na primavera de 1997, o professor e intelectual canadense/americano James Petras escrevia uma impactante tese (com uma série de reportagens) que podem ser um novo marco na história contemporânea. Era um número especial inteiro da revista espanhola “Ajo Blanco”, e tinha por título “A esquerda devolve o Golpe!”. O ano de 19997, por si só, já é um ano marcante, pois entre várias coisas, no final daquele ano houve o famoso massacre de Acteal, cidade do estado de Chiapas, sul do México, onde dezenas de camponeses mulheres e crianças foram covardemente assassinados com requintes de crueldade, dentro de uma igreja, por parte de forças paramilitares e de mercenários que usualmente têm como alvo camponeses-indígenas zapatistas.

 

Estávamos a quatro anos do surgimento o público do fenômeno zapatista no México ( 1994), e dali a dois anos (1999), no norte dos Estados Unidos, ocorreria a batizada “Batalha de Seattle”,  onde ambientalistas, sindicalistas, feministas, ativistas de várias cores, organizariam a maior manifestação pública da história recente contra  as distorções e injustiças sociais da “globalização” e monopólios político-financeiros por detrás da sigla O.C.M.  – Organização Mundial do Comércio.

Embora marxista, James Petras tem importantes paralelos com o também norte-americano Noam Chomsky, escritor investigativo anarquista – e considerado o maior gênio vivo da Humanidade por seus estudos sobre linguagem generativa.

A grande sacada de Petras  – num longo artigo publicado na revista espanhola “Ajo Blanco” (e que temos em mãos) – foi constatar que havia uma “Terceira Onda” na esquerda latino-americana. O termo é até uma ironia com o livro do futurólogo Alvin Toffler, “A Terceira Onda”, de relativo êxito na virada dos anos 70 para os 80 e que ‘profetizava’ uma nova era de paz, prosperidade e tranquilidade na economia mundial.

Constata Petras que, depois de dois grandes marcos na história contemporânea, o primeiro, que foi o impacto da Revolução Bolchevique na Rússia, em 1917 – e que influiu no surgimento e crescimento de grande partidos e sindicatos comunistas e anarquistas em todo o mundo -, e, um segundo momento, a Revolução Cubana de 1959 – que estimulou uma onda de guerrilhas por toda a América Latina -, estaríamos ante um novo processo político e social no continente, de novo tipo e diferente de experiências anteriores. Um novo patamar – ou “paradigma”, termo mais preciso usado por Thomas Kuhn em seu célebre livro “A Estrutura das Revoluções Científicas”.

Afirma Petras que “já não são apenas intelectuais de classe média, mas sim de origem camponesa e operária. Contam com escassos recursos econômicos, mas com tremendo entusiasmo e poderosa mística. Viajam de ônibus velho, 30 ou 40 horas, para estarem em alguma reunião ou manifestação, vivem de seus baixos salários, ou de produtos da terra, e têm escritórios quase espartanos, às vezes o pé da mesa ou escrivaninha atado com arame. Muitas vezes não têm carro próprio ou sequer empregados burocráticos. São ‘pessoas morais’, honestas, escrupulosas, debatem as decisões em assembleias e forma parte de um coletivo dirigente. Na maioria das vezes são muito críticos ante o oportunismo da esquerda parlamentar e das ONGs, muitas vezes enganosamente criadas. São realmente militantes e ativistas e aqueles dos quais participaram no período de lutas de guerrilhas, hoje se mostram contra o modelo vertical e do tipo ‘correia de transmissão’. Seus vínculos são muito mais com a base social do que com a maquinaria parlamentar”.

Naquele ano – 1997 – citava como exemplo desta nova e terceira onda, o zapatismo de Chiapas, no México, os Sem Terra, no Brasil, os piqueteiros da Argentina, e, movimentos camponeses e indígenas, como o MAS, de Evo Morales, em Chapare, na Bolívia.

 

Hoje, até graças ao impulso midiático e autonomista Zapatista, novos movimentos indígenas se fortaleceram, como os Mapuche, no Chile, as marchas camponesas pela água, no Peru, o movimento bolivariano, os guaranis-kaiowás, no Brasil, o ex-tupamaro e quase ‘monge trapista’, Pepe Mujica, no governo do Uruguai. Os indígenas-camponeses zapatistas conquistaram zonas autônomas – administradas por “Juntas de Bom-Governo” em extensões de Chiapas, e Evo Morales é presidente altamente estimado na Bolívia, com uma política de reverência à Pachamama, ou Mãe Terra, no dizer de quéchuas e aymarás.

SubComandante Marcos, liderança zapatista, atualmente intitulando-se SubComandante Galeano (homenagem a um companheiro zapatista, professor nas escuelitas zapatistas, assassinado por paramilitares)

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