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Aprender a aprender: os novos caminhos da educação

 Por Rafaela Martinez | Foto: Rodrigo Montaldi;

Para além da tecnologia, novas formas de pensar a educação têm tido destaque em escolas de rede pública e particular de ensino

Um dos mais aclamados educadores brasileiros, Paulo Freire defendia como objetivo da escola ensinar o aluno a “ler o mundo” para poder transformá-lo. Passados 21 anos de sua morte, o ensino regular pouco se modernizou: o sistema tradicional de educação segue tendo o professor como a figura responsável por ensinar e passar o conteúdo aos alunos, que serão avaliados por meio de provas e trabalhos.

A modernidade e a participação cada vez mais forte de diversos recursos tecnológicos no dia a dia das crianças, no entanto, contribuem para que os alunos da geração Z não se identifiquem mais com esse modelo formal de ensino.

Em artigo intitulado ‘Repensar a Escola’, o ex-secretário de Educação do Estado de São Paulo, José Renato Nalini destacou que, por mais paradoxal que possa parecer, o uso de novas tecnologias e os avanços da ciência influenciam diretamente no lado humano, sendo necessário cada vez mais atuar com capacidade de interação, comunicação, empatia, visão sistêmica, adaptabilidade e flexibilidade, competências nem sempre exploradas no ensino convencional.

“Por isso, a escola tem de ser reinventada. O aluno precisa ser preparado para aprender a aprender, uma vez que o conhecimento está todo disponível e o estudante precisa ser estimulado a acessá-lo. Incentivado a pesquisar, a coletar, a discutir, a analisar e a chegar a conclusões que podem vir a ser modificadas em seguida”, afirma.

Para além da tecnologia, novas formas de pensar a educação têm tido destaque em escolas de rede pública e particular de ensino. Em Itanhaém, por exemplo, o chamado modelo empírico está ganhando contornos tecnológicos dentro do programa ‘Aprendizado do futuro’: lousas digitais, tablets, salas de informáticas e aulas de robótica já integram o currículo de 36 das 51 escolas públicas da cidade.

No Jardim Suarão, a Escola Municipal Professora Dalva Dati Ruivo foi uma das primeiras unidades a trabalhar com um dos quatro recursos e que é considerada um modelo que deve ser expandido para aos demais estabelecimentos da cidade, de acordo com o Plano Municipal de Educação.

“Os professores apenas fazem o agendamento com antecedência na secretaria da escola e já preparam suas aulas pensando no melhor recurso a ser usado. Temos notado um retorno incrível dessa forma mais dinâmica de ensinar: essas crianças e adolescentes que são da geração Z se comportam mais em sala e se interessam mais e absorvem de forma mais plena o conteúdo”, conta a diretora Alessandra Martins Bento.

Entender e formar a criança para além do sistema conteudista. Na visão da assessora pedagógica Soraya Rodrigues Sales, é possível e necessário diversificar a forma de ensinar para crianças que possuem outras carências e vivencias.

“Hoje trabalhamos muitas vezes com aulas inversas: o aluno chega com uma questão e o professor em sala, tendo inúmeros recursos tecnológicos em mãos, consegue se aprofundar nela”, conta.

As mudanças na grade curricular da cidade parecem estar fazendo a diferença: a média da cidade no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), que é o principal indicador para medir a qualidade do ciclo básico do ensino brasileiro, superou a nacional e já ultrapassou a meta de 2019.

Para lidar com as novas formas de ensinar, os docentes precisaram voltar para sala de aula e aprender a lidar com os recursos. “Passamos por uma formação e somos também multiplicadores. Tem sido muito bom contar com esses recursos, pois se o aluno não entende uma forma ele pode compreender de outra”, destaca Alex Borges de Campos Filho, professor de ciência.

Concepção Construtivista: “O aluno é protagonista do processo de aprendizagem”

O aprendizado se dá de formas diferente: ele não está dentro e nem fora e acontece a partir da interação e da estimulação com outras pessoas, sejam elas alunos ou professores. Essa é a ideia da concepção construtivista de ensino.

Em Santos, uma das escolas que segue o modelo baseado nas ideias do suíço Jean Piaget e do bielorrusso Lev Vygotsky (ver abaixo) é o Colégio Atrio e Tatibitati, localizado na Ponta da Praia. A unidade aposta no ensino de arte e ciência em paralelo com a grade curricular atual e tem as salas todas dispostas em dupla, para incentivar a interação das crianças durante o processo de aprendizagem.

“Nossas salas de aula não são silenciosas e o papel do professor é o de lançar a pergunta certa para estimular a capacidade dos alunos. A interação é um dos objetivos do ensino construtivista”, conta a pedagoga Elaine Vidal, atual coordenadora do ensino fundamental I e II do colégio.

Enquanto no modelo tradicional de ensino o professor explica e o aluno faz os exercícios para comprovar o aprendizado, na concepção construtivista o professor lança o desafio antes do conceito, estimulando o aluno a refletir sobre as possibilidades de resposta com base em hipóteses e informações de mundo.

“Temos em mente que a criança já tem uma bagagem que precisa ser estimulada. O objetivo é fazê-la refletir e não passar uma regra pronta para ela decorar”, conta Elaine.

A modalidade de ensino pode ser explicada a partir de uma das atividades desenvolvidas pelos alunos nesta semana: foi pedido para que eles procurassem em jornais e revistas exemplos de palavras onde a letra ‘q’ não estivesse acompanhada pela letra ‘u’. Após a falta de sucesso na tarefa, o professor explicou que, conforme os alunos haviam constatado, o ‘q’ e o ‘u’ sempre são usados juntos.

“Nessa troca os dois aprendem. O professor precisa estudar muito para ser esse mediador de conhecimento em sala: o processo de formação é contínuo e exige muito do profissional. Não há um sistema apostilado e o trabalho é praticamente artesanal, específico para as necessidades das crianças”, explica.

Além disso, a concepção construtivista propõe que o aluno tenha um amplo repertório cultural em paralelo com a grade regular: há aulas de arte, fotografia, dança e teatro. Outra diferença é que as tradicionais aulas de história e geografia compõem a disciplina de ciências sociais, onde são inseridas também a sociologia e a antropologia. “Precisamos fazer um sociedade pensante. O objetivo não é fazer esses alunos aprenderem as regras e sim transmitir um conteúdo mais aprofundado onde a escola não é uma mera transmissora de informação e sim uma construtora de conhecimento. Há uma grande diferença entre as duas coisas”, destaca a pedagoga.

Apesar das diferenças em relação ao ensino formal, os alunos também são avaliados com provas a partir do 5º ano. No entanto, a avaliação final engloba outros fatores, tais como os trabalhos em sala, a postura enquanto estudante e as atividades individuais. Quando é notada a necessidade de recuperação, a mesma também se dá levando em conta todas as necessidades do aluno.

Quem inspirou? Baseado nas ideias do suíço Jean Piaget e do bielorrusso Lev Vygotsky,  o método procura instigar a curiosidade, já que o aluno é levado a encontrar as respostas a partir de seus próprios conhecimentos e de sua interação com a realidade e com os colegas.

Pedagogia Waldorf:“É preciso desenvolver o ser humano de forma integral”

Pensar o aluno como um ser em desenvolvimento integral e que fará a diferença no mundo após o processo de ensino. A ideia é o cerne da pedagogia waldorf, baseada na antroposofia do austríaco Rudolf Steiner.
No modelo, o ser humano vai além do material e se desenvolve em três fases desde o momento do nascimento até os 21 anos. “Entendemos que é preciso desenvolver o ser humano de forma integral e a arte é um dos caminhos. A pedagogia waldorf acredita que o trabalho manual tem uma relação estreita com o pensar e por esse motivo ele precisa ser incentivado durante todo o processo de aprendizado”, conta Maria Cristina Formozinho, psicóloga e coordenadora da Waldorf Santos, na Ponta da Praia, uma das escolas que trabalha com o sistema na região.

Conhecido como o defensor da sensibilidade, Steiner desenvolveu um modelo de educação que não prima pela qualificação profissional e sim para o desenvolvimento das artes e da consciência global. “Os alunos waldorf são seres humanos indescritíveis, capazes de mudar o mundo com ética e compaixão”, argumenta Maria Cristina.

No primeiro ciclo (ou setênio), que vai do nascimento até os sete anos, a pedagogia acredita que a criança está chegando do mundo espiritual e está na fase mais importante do desenvolvimento. “Essa criança está aprendendo as coisas mais difíceis que a acompanharão pelo resto da vida: andar, falar e pensar. O jardim de infância precisa ter o calor, o afeto e o aconchego de uma casa e é fundamental estimular a imaginação”, conta.

Nesse ciclo, não são oferecidos brinquedos industrializados e a fantasia é estimulada: na chamada ‘primeira infância’ as crianças escutam histórias dos clássicos infantis como os dos Irmãos Grimm, onde sempre há um final feliz.

No segundo ciclo, que vai dos sete aos quatorze anos, o corpo físico já está pronto para o aprendizado formal. “A criança até pode ser alfabetizada antes, mas isso apela para estâncias que ainda não estão prontas. Nesse ciclo, o que está se formando é o sistema cardiorrespiratório, permeado pelas coisas belas do mundo”, conta a psicóloga.

O professor tem um papel central no processo de ensino: o aluno tem um único docente que ministra as matérias básicas. Outros profissionais lecionam matérias específicas, tais como inglês, educação física, música e trabalhos manuais. A pedagogia não aplica o conceito de prova para avaliar a capacidade dos alunos. Isso não impede, de acordo com Maria Cristina, o bom desempenho dos estudantes nas avaliações oficiais.

Já no terceiro ciclo – dos 14 aos 21 anos – a capacidade intelectual do jovem é estimulada. “Nessa fase eles estão desenvolvendo o julgamento para serem seres do mundo. Assim trabalhamos a motricidade no primeiro setênio, a área cardiorrespiratória no segundo e a lógica no terceiro. As aulas precisam contemplar esses três aspectos, em um jeito diferente de pensar a educação”, conta.

Os professores do modelo também fazem uma formação contínua, uma vez que acompanham os alunos por um longo período. A alfabetização também é diferente, em forma de imagens e a escola preza pela participação ativa dos pais. “Eles são figuras essenciais do desenvolvimento e devem estar ao lado dos filhos”, conta Maria Cristina.

Todas as etapas da educação waldorf é permeada pela religiosidade e pelo respeito a natureza, não sendo, no entanto, uma escola com uma crença específica. “Acreditamos na energia da natureza a tal ponto que não temos quase nada de plástico nas salas. Os alunos têm contato com materiais naturais e a arte é incentivada a todo instante”, finaliza.

Quem inspirou? A pedagogia Waldorf é a abordagem educativa desenvolvida pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner a partir de 1919. De acordo com Steiner, a educação deve ser totalmente dedicada às necessidades do desenvolvimento da criança, baseado na antropologia evolutiva, que não busca a qualificação profissional ou a produtividade econômica e sim o papel do cidadão no mundo.

Sistema Montessori:“A educação precisa acompanhar a nossa época”

O aluno com total liberdade para aprender em seu próprio tempo, tendo em mãos diversos recursos que estimulam esse processo. Esse é o princípio do Sistema Montessoriano de ensino, criado pela italiana Maria Montessori e que teve destaque após a matrícula do príncipe George, herdeiro do trono britânico, em uma escola do gênero.

O modelo foi pensado para atender o processo de evolução pessoal dos alunos e também para estimular crianças com necessidades especiais. No Brasil, o modelo de educação é mais forte na região Nordeste, mas encontra espaço também na região, como é o caso do Colégio Alexandre Herculano, no Boqueirão.

O principal diferencial do modelo de ensino é ter classes multisseriadas, onde o professor trabalha, na mesma sala de aula, com várias séries do Ensino Fundamental simultaneamente, tendo de atender a alunos com idades e níveis de conhecimento diferentes. A ideia é baseada no conceito de que crianças de diferentes idades podem aprender e ensinar juntas.

“Como precisamos cumprir as diretrizes curriculares os alunos são segmentados em séries, mas acreditamos que essa interação é essencial para o desenvolvimento deles. Quando um pai e uma mãe tem mais de um filho, essas crianças crescem juntas. Por qual motivo na escola isso precisa ser separado?”, questiona a pedagoga Maricleide Ferreira, diretora da escola.

A educação Montessori educa as crianças pela paz, desenvolvendo o saber através de materiais pedagógicos próprios onde a partir da tentativa o aluno irá constatar que errou e buscará acertar. “A educação precisa acompanhar a nossa época. Não fazemos críticas ao modelo tradicional no qual fomos educados, tampouco defendo que o aprendizado adquirido deva ser descartado. Mas a nossa geração está mudando e precisamos acompanhar essa mudança na educação”, defende a pedagoga.

No sistema Montessori, as aulas são guiadas a partir da tentativa, erro e acerto. Uma das aulas de geografia, por exemplo, consiste em um grande mapa do mundo onde alunos de idades diferentes devem alocar materiais que representam um determinado País. O mais velho sabe diferenciar os continentes e auxilia as mais novas a buscar o Brasil no lado esquerdo do mapa, onde se localiza o Continente Americano. Já a gramática é representada por símbolos: os verbos são círculos, pois eles estão sempre em movimento.

“Os pais estão condicionados a rendimentos. Nós acreditamos que a criança precisa entender o que está aprendendo. Precisamos abrir nossas mentes para novas formas de ensinar e temos sim modelos bons no ensino tradicional, como a Escola Total, por exemplo. Mas as atividades precisam fazer sentido para as crianças”, destaca.

No modelo, constantemente os pais viram alunos para compreender a educação dos filhos. “As crianças chegam falando que aprenderam matemática com os bonecos de centurião, por exemplo, e muitas vezes os pais não entendem. Nós marcamos uma reunião e ensinamos exatamente o que a criança aprendeu para que o responsável também aprenda e transmita para ele. Ensinamos os pais a ensinar os filhos e isso traz um retorno incrível”, destaca.

O professor em sala atua como um mediador do conhecimento. “Entendemos que toda e qualquer pessoa necessita de educação, mas ela deve ser feita de forma prazerosa. O dia que perceberem que é possível pensar novas formas de ensinar a educação terá uma reviravolta”, conta.

Quem inspirou? Maria Montessori

A italiana Maria Montessori desenvolveu a metodologia, colocando em prática os preceitos filosóficos nos quais acreditava. Maria se formou em medicina e, ainda jovem, foi trabalhar com crianças que tinham necessidades especiais. A partir dessa experiência, desenvolveu um novo método pedagógico, que foi aplicado primeiro em escolas de educação infantil na Itália e depois se espalhou para o mundo.

FonteDiario do Litoral.

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