Colunistas Márcia Simões Lopes

Leia a seguir a carta aberta do povo indígena Guarani para todos os brasileiros

Carta do Povo Indígena Guarani

“No Brasil, todo mundo tem sangue indígena: alguns nas veias, outros nas mãos. Por isso convocamos a sociedade brasileira a nos apoiar nesta luta, todos aqueles que se sensibilizam com os povos originários, verdadeiros ancestrais do Brasil. Vamos juntos, joupive pive, lutar pelo futuro dos povos indígenas!

Aguyjevete para quem luta!”

Por Marcia Simões Lopes.

Foto: APIB

Em maio de 2019, cerca de 500 lideranças Guarani de todo o país se reuniram durante cinco dias na Aldeia Guarani Morro dos Cavalos, SC, para conversarem sobre questões que ameaçam a soberania dos povos indígenas e também trocarem idéias sobre o que fazer, para se protegerem da violência dos invasores e pistoleiros em suas terras – prática que cresceu no atual governo de Bolsonaro. Ao final do encontro, uma Carta foi redigida e tornada pública ao conhecimento de todos os que conhecem e apóiam as causas dos Povos Indígenas, especialmente a Nação Guarani.
A população indígena está sendo ameaçada pelos gananciosos que querem tomar suas terras, para plantar soja, garimpar, derrubar árvores, obter madeira e vender. Fazer dinheiro. As terras indígenas são as mais protegidas e preservadas, entre todas, no que diz respeito ao desmatamento e aos cuidados com as águas dos rios. O Rio Doce, um dos maiores rios brasileiros e que banha a aldeia do Povo Krenak foi considerado morto após suas águas serem invadidas por rejeitos tóxicos, provenientes da barragem que se rompeu em Mariana, Minas Gerais, três anos atrás. O Povo krenak não pode mais pescar e prover o próprio alimento. Também não existe mais: água do rio para beber. O rio que beira o Povo Yanomami no extremo norte do Brasil está envenenado de mercúrio, trazido por garimpeiros ilegais que atuam na região desde os anos 80. O líder desse povo, Davi Kopenawa autor do livro “A Queda do Céu” já denunciou junto à ONU que o veneno nas águas do rio está matando seu povo. Os constantes massacres contra a população Guarani Kaiwoá são conhecidos pela impunidade dos crimes.
Se o Estado brasileiro tivesse reconhecido os territórios dos povos indígenas e demarcado suas terras, nada disso estaria acontecendo.
Diante desse cenário, vários povos se organizam em busca de apoio, para conter a violência nas aldeias e fazer com que seus direitos –  entre eles demarcar os territórios – sejam garantidos pelo governo. O cacique Raoni, da Nação Kaiapó, liderança internacionalmente conhecida foi em maio deste ano recebido pelo presindete da França, Emmanuel Macron e também pelo Papa, no Vaticano. Ambos os dirigentes comprometeram-se apoiar a luta em defesa da amazônia e demais florestas brasileiras.
A Floresta é a casa do indígena!  O modo de vida dos povos nativos, está relacionado ao conhecimento cosmológico que cada povo possui a respeito do funcionamento da vida e do universo. Milhares de anos atrás, observando o movimento da natureza e do universo, os anciãos criaram um modo de viver sincrônico ao que estudaram, para caminhar harmoniosamente sobre a terra. Como um mapa, esse antigo saber orienta a caminhada do Homem no planeta e é passado de geração em geração, guiando os povos indígenas nos dias atuais. “Aqui na terra como céu” existe desde antes da igreja adotar, como expressão da sua religião.
Existem juruas –  denominação de “não indígenas” em Guarani – que ainda desconhecem a atuação dos indígenas, na vida do país. No Brasil, a ida dos povos indígenas para as cidades ocorreu por volta dos anos 80. Como parte da estratégia à apresentação das suas visões aos juruas. A fim de compartilhar seus conhecimentos e intervirem, positivamente, nos processos de construção e desconstrução do que é real e do que é, colonização –  ou seja, ilusão. A Constituição de 1988 garantiu, pela primeira vez, os direitos indígenas na Carta Magna do país. Foi, sem dúvida, um grande salto para a sustentação desses direitos. Porém, na sociedade do jurua a Palavra ainda tem pouco valor.
Quando entramos em uma aldeia, estamos adentrando à casa de uma família. Portanto, somos visitas! Recebidos de braços abertos para o compartilhar das mesmas medicinas, dos rezos e diálogos que aquela família compartilha entre seus membros. A ausência de cercas, muros e portões definindo propriedades é uma idéia de fé, de que aquele território será respeitado.
Após a segunda guerra mundial a Alemanha fez a auto crítica do holocausto, a partir de dentro do Estado. Ecoando essa consciência, a partir do Estado, para as escolas do país e em toda a sociedade. Educando a população olhar para essa tragédia, como algo que jamais poderá se repetir. Tal conduta do governo alemão é um bom modelo a ser seguido no Brasil. Para que o país, especialmente os juruas possam rever a história do Brasil e reconhecer a origem desta civilização a partir dos povos originários, indígenas. Pois sem que seja feita essa “correção de rota”, a sociedade brasileira estará apartada das próprias raízes, presa aos entendimentos trazidos pelo colonialismo europeu e estará privada de conhecimentos, sobre como construir a civilização com princípios humanos e pacíficos, em acordo com a origem destas terras.
Apesar da opressão e da colonização, os povos originários indígenas atravessam estes territórios, por séculos, sem se perderem das suas origens ancestrais e de seus conhecimentos milenares.
Marcia Simões Lopes – Jornalista
Leiam a Carta do Povo Guarani, redigida em maio deste ano na 8ª Assembléia da Comissão Guarani Yvyrupa:

“Palhoça/SC – Terra Indígena Morro dos Cavalos, 24 de maio de 2019.

Carta da 8ª Assembleia da Comissão Guarani Yvyrupa

Nós, mais de 500 lideranças Guarani articulados através da nossa organização a Comissão Guarani Yvyrupa (CGY), que reúne representantes dos povos Guarani Nhandeva, Mbya e Ava de todo Sul e Sudeste do país, com a participação de representantes da Aty Guasu, Arpin-Sul e APIB, registrando também a presença de apoiadores, reunidos entre os dias 20 a 24 de maio, de 2019, atentos às ameaças aos nossos direitos tradicionais e às violações de direitos humanos contra os nossos povos, tornamos público nosso posicionamento político.

Nesses cinco dias em que estivemos reunidos na Terra Indígena Morro dos Cavalos discutimos sobre a conjuntura nacional e do nosso Povo, ouvimos e trocamos experiências com nossos
parentes que vieram de toda a yvyrupa, de lugares que os jurua – os brancos – chamam Argentina, Paraguai, e também de vários estados, fronteiras criadas pelos brancos que chamam de Mato
Grosso do Sul, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Tivemos tempo para encontrar nossos parentes que vieram de longe, dançar, sorrir, cantar e discutir o futuro da nossa organização indígena, e definir as nossas prioridades, mas não ignoramos a conjuntura nacional e o histórico de violações que nossos povos estão submetidos.

São 519 anos que os jurua tentam cometer genocídio contra o nosso povo. Aos brasileiros que estão assustados com os ataques deste governo dizemos: sejam bem-vindos ao Brasil! Durante muitos anos lutamos sozinhos, e estamos denunciando a destruição dos nossos territórios, da nossa cultura para o dito progresso. Mas nesse momento em que enfrentamos um governo de viés fascista, estamos estendendo nossas mãos, estamos conseguindo amplificar a nossa voz, nos conectar com
outros povos, movimentos e outras lutas.

Com essa mobilização conseguimos derrotar a municipalização da saúde indígena, realizamos o Acampamento Terra Livre na Esplanada dos Ministérios, nos reunimos com os presidentes do
Senado e da Câmara dos deputados e conseguimos derrotar também a afrontosa destruição da Funai.

Não temos medo e não iremos recuar. Sabemos que a principal estratégia do governo é dividir o povo, e os ruralistas que dominaram o governo e a pasta de assuntos fundiários especialmente o Sr. Nabhan Garcia, estão percorrendo várias aldeias de nossos parentes se aproveitando da situação
difícil que enfrentamos pela ausência de políticas públicas adequadas, obstáculos para a demarcação de terras indígenas e sucateamento da Funai, para assediar as comunidades com
promessas vãs de que devem arrendar suas terras, abrir espaço para mineração, plantio de soja, eucalipto e outras formas de destruição da natureza e da nossa cultura, a eles dizemos: não iremos recuar!

Sabemos da estratégia dos jurua que dividiram o continente sul americano com o objetivo de explorar o rio, a mata, os minérios para mandar todo esse recurso para a Europa, e outros continentes, passamos por esses processos todos desde os jesuítas, bandeirantes, perseguição da ditadura militar.

Também já enfrentamos a perseguição cristã que até hoje se mantém presente, dizendo que nossa religião, nosso modo de vida, nossa tradição e crenças não são verdadeiras. Mesmo assim a nação Guarani se coloca em resistência a todos esses processos, as aldeias, os xeramoi e xejaryi continuam com as práticas tradicionais do uso das ervas medicinais, ensinamentos aos mais jovens e luta para o território.

Depois de destruir as matas e poluir os rios, os jurua kuery criam reservas de proteção do meio ambiente, e nos expulsam dizendo que somos invasores, dizem que se os guaranis se espalharem
vai acabar as florestas, os rios, e os animais, mas os jurua só chegaram aqui há 519 anos e foi nesse período que eles se espalharam e as matas acabaram, muitos animais fugiram e foram extintos. A intenção deles não é de proteção, se fosse isso nós seríamos procurados para realizar parceria, o interesse deles é privatizar e garantir a exploração econômica. Não somos invasores, somos protetores da floresta e que a pequena faixa do bioma Mata Atlântica ainda se mantém porque os guaranis se encontram neste território.

Na região do Vale do Ribeira, nossas comunidades estão sendo pressionadas para sair do lugar porque ali seria parque ambiental, mas continuaremos sempre lutando para defender nosso território que alguns querem privatizar.

Muitas terras estão com a demarcação paradas no Rio Grande do Sul, existem situações de retomadas que correm risco de reintegração de posse e até hoje também há parentes que vivem
em beiras de estrada enquanto os processos de demarcação estão paralisados. Existem comunidades que estão nas suas terras mas que o Estado dizendo que é dono, não consegue chegar a um acordo com a Funai para regularizar a situação.

Lembramos também dos nossos parentes Kaiowa que foram mortos na época da mate laranjeira, para enriquecer os fazendeiros que exploram a soja, o gado e a cana, e hoje estão no Congresso e no Governo, pagando pra matar e tentando aprovar leis para criminalizar nossos parentes.

Destacamos que a luta dos Guarani no Paraguai e Argentina é a mesma luta que vemos aqui no Brasil, denunciamos que estão matando as nossas comunidades, matam nossas lideranças, levam corpo não sabemos pra onde.

Na região Oeste do Paraná, os ruralistas falam que nós nunca fomos de lá, quando na verdade fomos expulsos de lá para construir a Itaipu, grande ‘progresso nacional da morte’ que inundou os nossos tekoa e quando retomamos esse território, somos chamados de invasores. Dizem que somos paraguaios jogando a opinião pública contra nós, essa estratégia é conhecida, eles atacam a nossa identidade para negar nossos direitos, a isso respondemos: nossa terra é a Yvyrupa, não temos fronteiras!

É um momento difícil, nossos xondaros e xondarias estão sendo impedidos pela justiça de se manifestar, uma decisão da justiça de Umuarama criminaliza as lideranças dizendo que não podemos usar os símbolos da nossa cultura porque isso ofende a polícia. Não podemos e não iremos nos calar, estamos vivendo a ameaça de um governo com traços fascistas, as manifestações são a cura contra o fascismo!

Destacamos que, além dos direitos relacionados à terra, sempre tivemos que lutar pelo direito à educação diferenciada, sonegada pelo Estado brasileiro, ao saneamento básico e à saúde indígena,
que foi construída de maneira participativa nos últimos anos, chegando a uma proposta que precisa ser melhorada e aprofundada, e não destruída, desmontada ou desmembrada para os municípios.

Diante dessas situações, aprovamos os seguintes posicionamentos:

1. Repudiamos quaisquer alterações nas estruturas do Governo Federal que tentem colocar para enfraquecer nossos direitos territoriais, como a Medida Provisória 870/2019 e Decreto
9667/2019, que violam nosso direito à Consulta Livre, Prévia e Informada, e através da qual o representante máximo do Poder Executivo pretendia cumprir suas promessas de campanha e garantir que não haja, em sua gestão, nenhum centímetro de terra demarcada para indígenas e quilombola;

2. Denunciamos as propostas do Governo Federal que atacam nossos direitos fundamentais relacionados à saúde indígena, e novamente violam o direito à Consulta Livre Prévia e Informada, além de apagar as nossas especificidades culturais conquistadas com a saúde diferenciada, ao propor a municipalização da saúde indígena, precarizando ainda mais a já mal executada política pública;

3. Nos levantamos contra os retrocessos na Educação, feitos por um Ministério desqualificado que busca a todo custo cortar recursos em todas as áreas e favorecer interesses de empresas privadas, tendo extinguido de saída a SECADI, secretaria que tinha função de promover nossos direitos constitucionais de uma educação indígena, diferenciada e específica para cada um de nossos povos;

4. Por fim, nos manifestamos contra a Reforma da Previdência e nos somamos aos trabalhadores da sociedade brasileira na luta contra a retirada dos nossos direitos historicamente conquistados, particularmente quanto às mudanças na aposentadoria rural, que afetarão profundamente nossas comunidades e nossos anciãos, os xeramõi e xejaryi kuery;

5. Defendemos e lutamos pela demarcação de todas as terras indígenas da Yvyrupa, pelo não retrocesso e garantia dos nossos direitos originários e pela segurança e não criminalização das nossas lideranças.

Nós lutamos contra a violência dos jurua kuery há mais de 500 anos, e continuaremos a lutar, unidos, até o fim, para que kyringue, nossas crianças, tenham um futuro digno.

No Brasil, todo mundo tem sangue indígena: alguns nas veias, outros nas mãos. Por isso convocamos a sociedade brasileira a nos apoiar nesta luta, todos aqueles que se sensibilizam com
os povos originários, verdadeiros ancestrais do Brasil. Vamos juntos, joupive pive, lutar pelo futuro dos povos indígenas!

Aguyjevete para quem luta!”
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