Colunistas Márcia Simões Lopes

Nhemongarai – o batismo do milho nativo

Por Márcia Simões Lopes

A forma de viver do povo Guarani da aldeia Yynn Moroti Whera, em Biguaçu, SC, está relacionada ao respeito pela terra, que é sagrada. Nesta época do ano acontece a Cerimônia de batismo do milho – Nhemongarai, uma das importantes.

A história teve início quando Nhamandú, o grande ser sol, mandou esse calor, o Karay, para construir a Terra. As crianças tinham muita fome, então ele tirou a manta dele e sacudiu muito. Foi de onde saiu o milho já pronto. Saíram da manta, também, o palmito, as batatas, o aipim e a erva mate. E foi assim que eles comeram e tomaram chimarrão.

Até hoje, nós, Guarani, lembramos disso e honramos esse momento, rezando a terra.

Quando plantamos o milho, na Primavera, rezamos as sementes do milho. Após, rezamos quando está plantado. E quando colhemos rezamos também. Depois, realizamos a Nhemongarai, cerimônia do batismo do milho. Esse é o momento do agradecimento a Nhenderú, ocasião quando é realizada a distribuição da fartura.

A cerimônia de batismo do milho é aproveitada, também, para batizar as crianças da aldeia. Elas são rezadas e ganham o verdadeiro nome, correspondente à essência delas, dizendo sobre quem verdadeiramente são. É o pajé que reza e que vê do outro lado, quem é aquele ser que chegou a este mundo.

Na cerimônia de Nhemongarai, as cestas de alimentos são rezadas e oferecidas a todos. Para que as pessoas se sirvam e igual espelho vejam naquela fartura, a abundância de quem elas são.

Somente os homens colhem o milho. Pois as mulheres têm as crianças para olhar e cuidar. Além de prepararem o alimento.

Na casa comunitária da aldeia, as mulheres preparam o milho, feito dessa colheita. Então tem o “Buta” que é cozido e se parece uma pamonha e outro alimento feito de milho é assado se parecendo um bolinho.

Cada mulher faz esses bolinhos e molda alguns deles representando seus familiares, que serão colocados no altar da cerimônia para serem rezados.

O rezo das mulheres acontece pela manhã, por causa do sol. Toda manhã, o sol vem fecundar a terra!

A água também é rezada na cerimônia Nhemongarai. A água traz a vida. São feitos dois rezos. Um para a água do rio, representando o masculino – a água da fertilidade; o outro rezo é feito para a água do mar, representando o feminino, a fecundação, pois o mar tem a mesma propriedade do líquido amniótico presente no útero da mulher.

O altar da cerimônia é representado pelo milho que é a semente, pela carne que é o ser e também estão os frutos, representando a abundância.

Texto tecido a partir de informações colhidas com Celita Antunes, liderança feminina da aldeia Guarani Yynn Moroti Whera.

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