Kultura Viramar

Nota de apoio à atriz santista Renata Carvalho

Por Festa- Festival Santista de Teatro

“A liberdade e a prisão

Ter um barco que percorra

Distâncias incríveis

Saber remendar um sapato

Encontrar um amor

Amor de verdade

Ser vento, fogo ou carvão

Tudo, tudo, tudo

Menos esta ratoeira”

Pagu

O FESTA – Festival Santista de Teatro, vem através desta se posicionar contra a censura ao espetáculo “O evangelho segundo Jesus – Rainha do céu”, monólogo protagonizado pela atriz santista Renata Carvalho, na programação do festival “ Janeiro de Grandes Espetáculos”, realizado pela APACEPE – Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco, que em carta aberta diz :

“O cancelamento se dá uma vez que o espetáculo seria realizado em um teatro público e ainda devido à pressão da bancada evangélica de Pernambuco. Por motivos similares, a montagem já enfrentou ações judiciais e passou por outros cancelamentos em território brasileiro.“

A arte não pode habitar os corações covardes afirma Plínio Marcos, um dos autores mais perseguidos pela censura, o Movimento Teatral da Baixada Santista, organizador do FESTA, que em sua edição 59 teve como tema “Liberdade de expressão” e contou com ” O evangelho segundo Jesus…” como espetáculo de abertura da mostra, no teatro Guarany, espaço público de forte ligação com o movimento abolicionista, teve sessão lotada e contou com apoio do poder público exatamente pela compreensão e necessidade de debates acerca dos temas apresentados na obra da dramaturga Jo Clifford com direção de Natalia Mallo.

“O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”, nos ensinou Simone de Beuvoir, nós trabalhadores da cultura devíamos saber o que significam essas palavras, sendo assim repudiamos veementemente a direção do festival, que em carta aberta da organização do evento, justifica:

“…vem informar que, com o objetivo de resguardar a realização do próprio projeto e preservar suas fontes de financiamento, a direção do 25º Janeiro de Grandes Espetáculos se viu obrigada a retirar da programação do festival a peça “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”.”

“O festival reitera o seu compromisso com a liberdade de expressão e, exatamente por este motivo, realizou o convite para que “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu” integrasse a programação do evento. Por não aceitar este tipo de censura, a direção do festival está dando suporte à produção do espetáculo para que ele seja encenado, na mesma data que ocorreria no Janeiro, em um espaço privado e de maneira independente.”

O espetáculo traz uma mensagem e pauta questões urgentes para o país que mais mata a população LGBT em todo planeta, está fazendo peregrinação mundo afora, levando palavras de aceitação, igualdade, amor, respeito e união, e a curadoria do Janeiro de Grandes Espetáculos optou pelo cancelamento, demonstrando apoio a censura, a bancada evangélica, a fim de preservar suas fontes de financiamento, reforçando a transfobia, a exclusão dos corpos T no mercado de trabalho e na arte, numa violência e silenciamento incompatíveis com a função de produzir acesso à cultura e diferentes visões de mundo.

O FESTA com 60 anos é o mais antigo festival do gênero em atividade no Brasil, tendo sido criado em 1958 por Patricia Galvão, teve suas atividades interrompidas em outro período histórico, em que tivemos um prefeito eleito destituído e um interventor no comando, na década de 70 com a perda de sua autonomia política e administrativa. Santos, que abrigou o navio prisão da ditadura militar Raul Soares, sabe o que é censura. O Festival retomou suas atividades nos anos 80 com a reabertura política e muita luta e resistência.

Sr. Paulo de Castro e equipe, não podemos normatizar, naturalizar e aceitar nenhum tipo retrocesso e perda dos direitos humanos, ainda mais quando ela vem de supostos agentes da cultura. Em Janeiro de 2019, nós já perdemos o Ministério da Cultura, a história se faz no presente também. Festivais são locais de encontro, intercâmbios, de troca e olhares, escuta e alumbramentos, são locais de afeto e acolhimento da diversidade.

A mudança vai acontecer de qualquer maneira. Então por quê resistimos?

Pernambuco, terra de Paulo Freire, João Cabral de Melo Neto, Tunga, do Maracatu, do Frevo, Joaquim Nabuco, Chico Science, Cláudio Assis, Kleber Mendonça Filho, Chacrinha, Nelson Rodrigues, Gilberto Freyre foi impedida de ver Jesus. De salto e de Santos.

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