Brasil: O que rola agora

A potência e as múltiplas belezas da arte contemporânea indígena

O fazer artístico dos povos originários amplia seu espaço, reunindo beleza, talento e saberes; conheça alguns desses artistas

Por PATRÍCIA CASSESE
Foto: Fuzuê Filmes

 

Após ser escolhida para protagonizar o filme “Roma”, de Alfonso Cuáron, em 2018, a vida da mexicana Yalitza Aparicio deu um giro de 180 graus. Primeira artista indígena a ser indicada ao Oscar de Atriz, também foi nomeada uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela “Time” e nomeada Embaixadora da Boa Vontade da Unesco para os Povos Indígenas.  “Agora, podemos”, disse ela, que também foi a primeira indígena a estampar a capa da “Vogue” México, referindo-se aos povos originários mundo afora.

Yalitza é um exponte entre os vários indígenas que, tendo seguido um chamado interno para se enfronhar no campo artístico, usam seus dons também a serviço de questões maiores, num movimento que se conecta com o interesse cada vez mais aguçado das demais populações ao universo dos povos originários. “Os povos originários  são nossos guias e detentores da terra em que vivemos. Hoje, temos presenciado um momento único, com um contigente que, respeitando suas origens, compartilha suas experiências e histórias, chegando junto na criação e apresentando suas artes”, opina Marta Carvalho, uma das cabeças da Iyabá, agência que promove acolhimento e troca de saberes entre mulheres não brancas. No entanto, ela lembra que ainda são muitas, as barreiras. “Os maiores desafios ainda estão nas estruturas coloniais, fechadas, restritas e preconceituosas. Faltam muitas lideranças não brancas nas instituições, nos projetos, nos espaços de poder”.

 

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Mesmo com os percalços, no Brasil já são vários os nomes que de imediato acorrem à mente dos mais atentos a esse momento: do escritor e pensador mineiro Ailton Krenak à arte potente do roraimense Jaider Esbell (que, ano passado, mostrou o trabalho “Entidades” no Circuito Urbano de Arte -Cura), passando pelo cinema de Patrícia Ferreira Pará Yxapy, para citar alguns. “Na verdade, fui curadora do Natura Musical e tive o prazer de ler esse Brasil profundo a partir das histórias contadas para esse edital. Poder abrir meus ouvidos e minha visão para esse novo/antigo/futuro foi umas das coisas mais grandiosas da minha jornada. Humildemente me curvo diante de tanta força e criatividade”, diz Marta, referindo-se, entre outros, aos indígenas.

Em meio a toda pluralidade e talento dos povos originários, preocupações das mais variadas emergem. “Além de produzir, há um grupo de artistas que tem procurado acompanhar como esse fenômeno está circulando, como tem sido colocado nos contextos”, conta o já citado Jaider, fazendo uma ressalva importante. “A gente chama de Arte Indígena Contemporânea, palavra arcabouço para organizar melhor as ideias. Exatamente nessa sequência, a sigla é AIC. Vem de uma colocação para contrapor o termo com o qual a academia  a vinha tratando: arte contemporânea indígena. Críticos dele (termo), propomos essa alteração, na lógica de que os indígenas sempre fizeram arte, desde a pintura rupestre, embora não com essa palavra (arte). Então, a gente está falando dessa ideia de sistema, que é basicamente eurocêntrico, e propõe que as pessoas considerem que os indigenas têm um sistema próprio de arte, com aplicações, funções e dimensões particulares, diretamente relacionadas com o trabalho dos pajés, dos mestres”, arremata Jaider.

 

Outra preocupação comum aos artistas é a de manter vivas as próprias raízes, independentemente dos caminhos tomados. “Percebo que todos nós, artistas indígenas (ou indígenas artistas) buscamos falar de nossas ancestralidades a partir da sua experiência e do local que vivemos, seja a aldeia ou a cidade”, opina, por sua vez, o paraense (residente em Manaus) Emerson Pontes. “Ao abordar esses temas, propomos um olhar e tato mais generosos, vívidos e sinceros com a nossa avó, a natureza”, complementa ele, que traz consigo uma história rica e bem particular.

 

Com formação em biologia e mestrado em ecologia, Emerson atuou por seis anos na pesquisa científica e, nos últimos cinco, como artista visual e arte educador em comunidades ribeirinhas e indígenas do Amazonas. Mas ele não pensava em ser artista até junho de 2016. “Naquele mês, houve uma ocupação de artistas em Manaus, em defesa da democracia. Acabei participando e, durante o processo, mergulhei mais em mim e deixei Uýra (entidade) fluir, através de maquiagens e performances. Quando percebi, Uýra estava no mundo. Decidi emergir como artista para falar de vida”.

 

Reunir biologia e arte, entende, foi um caminho complementar que encontrou (ou pelo qual foi encontrada) para falar de conservação de vida, ampliando o próprio entendimento sobre vida e suas expressões. “Meu trabalho é composto por nexos entre diversidade biológica e cultural e violência ambiental e social”. E prossegue: “Utilizo a matéria orgânica como parte do meu corpo, agregando com a soma, novas formas e caminhos estéticos possíveis. No conjunto há uma fala, sempre conectada à história daquele elemento orgânico e do seu encontro com o meu corpo, um corpo coletivo. Sementes, flores, folhas, galhos, tudo tem história”.

 

Uýra, Pontes define como uma manifestação em carne de bicho e planta que se move para exposição e cura de doenças sistêmicas coloniais. Através de elementos orgânicos, utilizando o corpo como suporte, encarna esta árvore que anda e atravessa suas falas em fotoperformance e performance. Se interessa pelos sistemas vivos e suas violações, e a partir da ótica da diversidade, dissidência, do funcionamento e adaptação, (re)conta histórias naturais, de encantaria e atravessamentos existentes na paisagem floresta-cidade”.

 

Emerson conta ser Ailton Krenak uma de suas grandes inspirações. “E vejo meu trabalho como mais uma tentativa de adiar o fim do mundo (citando o título de um dos livros do mineiro, “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”, bem como o ciclo de palestras “Conversas Para Adiar o Fim do Mundo”), por isso busco falar do que é belo, único, potente e habita o nosso quintal, tanto a terra quando o coração”.

 

Mas, pontua, seu trabalho também é um alerta sobre o que, no caso, adianta, antecipa, esse fim. “Por isso vejo Uýra como canal que gera imagens que o olho já não vê, como as violências que nos cercam, sejam elas concretas ou simbólicas, mas sempre cotidianas”.

 

Para Emerson, há mais de 500 anos a branquitude se aproveita das narrativas e saberes de povos indígenas, roubando-lhe a autoria “ou nos botando como totem”. “Acho importante o movimento antiracista e decolonial, mas somente quando este não repete o que diz enfrentar”. E entende que é preciso que, como artistas indígenas, sejam integrados aos espaços privilegiados. “E isto estamos fazendo por conta. Óbvio que toda ajuda é bem-vinda, mas é preciso que seja de forma respeitosa, contextualizada e alinhada com aquilo que acreditamos. Esse olhar e abordagem atenciosos, para mim, são determinantes para ultrapassarmos de fato as barreiras da valorização de nossa arte, vida e culturas”.

 

 

Projetos, feitos e agenda

 

Para 2021, Emerson vai participar da 34ª Bienal de São Paulo com três trabalhos: duas sérias fotográficas: Resistências e Retomada; mais uma instalação, “Malhadeira”. Além disto, três outras exposições estão confirmadas, sendo uma na Áustria, uma no Rio de Janeiro (Casa França Brasil) e outra no Museu de Arte Het Valkhof, na Holanda.

 

Fato é que nos dois últimos anos, a arte de Emerson vem arregimentando cada vez mais destaque. Em 2019, por exemplo, ele fez duas individuais (“Árvore que Anda” e “Circuitos Encantados”, no Largo São Sebastião, em Manaus, além de ter participado do 38º Salão Arte Pará, realizado no Museu do Estado do Pará, em Belém. No ano passado, integrou a coletiva “Des Livres et Vous”, em Arles, na França; e da exposição fruto do Prêmio EDP nas Artes, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.

 

Voltado para estimular a produção artística contemporânea, o Prêmio EDP nas Artes é dedicado a jovens artistas de todo o Brasil, nascidos ou residentes no país há pelo menos dois anos, com idade entre 18 e 29 anos. Vale dizer que a exposição foi prorrogada até 21 de fevereiro, com todos os protocolos de segurança tendo sido adotados para a proteção dos visitantes, segundo a instituição.

 

Cinema

 

Da performance ao cinema. A atuação indígena ganha destaque em eventos calibrados país afora. Caso do 24º Festival de Cinema de Tiradentes, que está em curso. A mostra competitiva, por exemplo, conta com a presença da professora, comunicadora, diretora e roteirista indígena (reserva de Dourados) Graciela Guarani em seu corpo de jurados. Na verdade, Tatiana Carvalho Costa, uma das curadoras de curtas-metragens da mostra desde a 22ª edição, celebra a presença cada vez maior de cineastas indígenas no evento, “com filmes fortes, nas competitivas, fazendo frente a filmes de cineastas não indígenas de um jeito muito bonito”.

 

Ela conta que, coincidentemente, passou a integrar a equipe justamente no primeiro ano em que foi solicitada a auto-declaração de raça e de gênero no formulário de inscrição. “E aí, a gente teve, já na 22ª, quatro pessoas auto-declaradas indígenas, na direção de filmes. Na 23ª, por sua vez, seis indígenas e três afro-indígenas. E agora, na 24ª, cinco indígenas e uma afro-indígena, todos auto-declarados assim. “Temos, por exemplo, um selecionado na categoria , o ‘Opy’I Regua’, da Júlia Gimenes e Sérgio Guidoux: a Júlia se autodeclara como indígena”.

 

Tatiana lembra que, na edição do ano passado, foi realizada, na extensão São Paulo da Mostra Tiradentes, uma conversa (disponível no YouTube) que contou com a presença da citada Graciela, que, frisa a curadora, levantou pontos muito relevantes. “Vou destacar dois e acrescentar um: ela fala a importância de os cineastas indígenas fazerem seus filmes sob suas próprias perspectivas para dar mais visibilidade e naturalizar seus corpos, tão atacados nesta nossa cultura colonial, ocidentalizada e até hoje com essas referências eurocêntricas. E também falou da questão empregabilidade, da cadeia produtiva: as pessoas indígenas enquanto profissionais do cinema. Acrescento um terceiro ponto, que tem a ver com multiplicidade de formas de expressão e de temáticas”, diz ela.

 

A música, território de potências

Na música, a cantora e compositora Brisa Flow lançou, em outubro passado, o clipe de “Jogadora Rara”, gravado junto a uma equipe formada por indígenas e negros – a canção faz uma contundente crítica ao sistema que coloca corpos não-brancos em museus, mas que os marginaliza nas periferias. Brisa de la Cordillera, mais conhecida como Brisa Flow, é também poeta, performer, produtora musical e ativista, e se apresenta como expoente do indígena futurismo no Brasil.

 

Uma curiosidade: ela iniciou seu processo artístico em Belo Horizonte, e, hoje, seu trabalho “mistura a levada latina com rap, eletrônico e neo/soul”. Seu primeiro álbum foi lançado em 2016, intitulado “Newen”, que significa “força” na língua nativa do povo ameríndio Mapuche e esteve entre os 20 melhores lançamentos daquele ano selecionados pelo “Estado de S. Paulo”. Também foi artista “aposta” da Folha de São Paulo em 2017. O segundo trabalho, “Selvagem Como o Vento”, foi lançado em dezembro de 2018, esteve entre diversas listas e concorreu pelo site da Redbull entre os melhores 50 discos do ano.

 

Erguendo a bandeira do hip hop, Kunumi MC, por sua vez, já tem dois discos lançados: o EP de estreia, “My Blood is Red” (2017), e o álbum “Todo Dia É Dia de Índio” (2018). Também marcou presença em empreitadas como o documentário “My Blood is Red”, produzido pela britânica Needs Must Film. O filme, de 2016, levou o artista a conhecer diversas aldeias indígenas pelo Brasil, onde conferiu de perto a realidade de diferentes etnias. Um desses encontros foi com a líder Sônia Guajajara. Ao longo dessa trajetória, conta ter testemunhado a violência praticada por ruralistas, madeireiros, garimpeiros e políticos contra os indígenas – o que só o estimula a seguir avante.

 

Mas além de rapper, ele também é escritor e tem dois livros publicados – um com o irmão, Tupã Mirin, chamado “Contos dos Curumins Guaranis”, e outro solo, “Kunumi Guarani”. Tupã, vale dizer, acompanha Kunumi nos palcos como DJ Tupan. Juntos, aplicam o que chamam de rap nativo, criação musical a partir da visão de um indígena nativo sobre a sua própria cultura. No seu caso, a etnia Mbyá-Guarani.

 

Quanto às suas influências musicais, Kunumi MC aponta outros artistas indígenas nativos, como os grupos Brô MC’s e Oz Guarani, Djuena Tikuna e Ibã Huni Kuin, além de nomes clássicos da cena rap, como Racionais MC’s e Criolo, com quem, inclusive, gravou “Demarcação Já – Terra Ar Mar”. Kunumi já lançou outros três singles: “Xondaro Ka´aguy Reguá”, “Moradia de Deus” e “Força de Tupã”.

 

Kunumi também foi destaque no site da White Feather Foundation, da fundação de Julian Lennon (filho de John Lennon), que apoia comunidades indígenas pelo mundo. Em dezembro do ano passado, representou o Brasil – ao lado da cantora Daniela Mercury – no evento de celebração do Dia dos Direitos Humanos, promovido pela ONU.

 

Na moda

 

Até na moda, onde o eurocentrismo até bem pouco tempo atrás era modelo praticamente único nas passarelas, a presença indígena se faz presente – e se destaca. Descendente de índios Aruans, a modelo Emilly Nunes foi, no ano passado, capa da “Vogue” Portugal, fotografada por Ricardo Abrahao. Seu colega de profissão, o pataxó Noah Álef está decolando agora, mas com bons horizontes.

 

Nascida em Belém e criada na Ilha de Marajó, Emilly é fruto da miscigenação brasileira e segue em sua rotina tradições típicas de seus antepassados indígenas, produzindo farinha de mandioca caseira e indo à mata, onde colhe açaí e bacuri. Antes de despontar como modelo de sucesso, vendia chips de celulares nas ruas da capital paraense, mas conta que desde criança acompanhava desfiles de moda, quando calçava o salto-alto da mãe e desfilava pelos cômodos da casa onde vivia com a família. Atualmente com 22 anos, ela foi descoberta por um olheiro, Recentemente, mudou-se para São Paulo, onde tornou-se aposta da moda e assinou contrato com a WAY Model, de Anderson Baumgartner, responsável pela carreira de prestigiadas tops como Sasha Meneghel, Carol Trentini e Alessandra Ambrósio.

 

As glórias da profissão, porém, não a fazem esquecer suas origens – ao contrário. “Tenho trabalhado bastante e estou muito feliz, mas desde o começo tento dar mais voz ao povo indígena, às tradições. Valorizar nossas raízes nos leva bem mais longe”, acredita ela. “Acho muito importante ter olhares voltados cada vez mais a nós, indígenas, tendo em vista que pouco se ouve falar da gente. Com toda certeza sim, traz bastante ganho às comunidades”.

 

Aos 21 anos, Noah Álef, do povo pataxó, mora em Jequié, no Sul da Bahia. Antes da carreira como modelo, trabalhava como empacotador e fazia bicos como ajudante de pintor: “Foram trabalhos que me ajudaram a evoluir e que me permitiram valorizar ainda mais tudo o que tenho conquistado”, reflete.mas deve embarcar ainda este ano para São Paulo, para também seguir a carreira de modelo. Além das malas, levará uma certeza: “Espero levar mais visibilidade aos povos indígenas e mostrar que podemos ocupar qualquer espaço. Espero que nós, indígenas, possamos conquistar espaços nas artes, que nos tenham como inspiração e, assim, possam aparecer novos talentos dos povos originários”.

 

Atuante, diz ficar extremamente triste ao ver as invasões de terras, “o genocídio de nosso povo e o desmatamento da natureza”. “Como se não bastasse tudo isso, os povos em situação de isolamento sofrem com o avanço da pandemia. Somos protetores do meio ambiente! Sem respeito aos indígenas, nosso povo e nossa selva correm riscos”.

 

Podcasts Mekukradjá

 

Entre as atividades realizadas pelo Itaú Cultural com artistas, pensadores e representantes indígenas, o público pode acompanhar no site e nas plataformas digitais da instituição o podcast Mekukradjá, dedicado às tradições, resistência, renovações e outros aspectos dos universos indígenas no Brasil contemporâneo.

 

O programa é fruto de Mekukradjá – Circuito de Saberes, programação realizada pelo Itaú Cultural, com curadoria do educador e escritor Daniel Munduruku e da antropóloga e documentarista Júnia Torres, e que em 2020 chegou à quinta edição, toda realizada online.

 

Já participaram do podcast convidados como o artista plástico e designer Denilson Baniwa, Darlene Yaminalo Taukane, a primeira mulher indígena a receber o título de mestre em educação no Brasil, o líder e ativista ambiental Paulinho Payakan, a cineasta Graci Guarani, a rapper Katú Mirim, além de Daniel Munduruku, entre outros.

 

O podcast Mekukradjá tem cinco temporadas lançadas, com 50 episódios no ar. O ano de 2021 começa com o lançamento de uma nova temporada, ainda no primeiro semestre, com 10 novos episódios.

 

Para ouvir os episódios já no ar, acesse:

https://www.itaucultural.org.br/secoes/podcasts/mekukradja

 

Em tempo: oo Mekukradjá – Círculo de Saberes: Construção de Pontes tem também edições presenciais. A de 2020, não houvesse a pandemia, seria realizada em parceria com o Palácio das Artes de BH. Com o advento do novo coronavírus, o evento foi realizado virtualmente.

 

Em tempo 2. Mekukradjá tem origem Kayapó/Mebengokrê1 e significa “sabedoria” ou “transmissão de conhecimentos”.De 2016 a 2020, o Mekukradjá já reuniu representantes de mais de 30 povos indígenas oriundos de todas as cinco regiões do Brasil, configurando um mapa da diversidade no país.

 

Fonte: Portal O Tempo

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