Colunistas Simone Salles

Se alguém perguntar por mim…

Por Simone Sales.

Se 1968 foi o ano que não terminou, como disse o Zuenir, 2018 é o ano que não chegará. Ou levará umas três décadas para dar as caras por aqui. Caso esse país ressuscite, claro. Disse isso faz um tempo. Não fui a única. Não é preciso dons mediúnicos ou títulos seja-lá -do-que-for para dizer uma quase obviedade. Basta observar. Agora, estamos nós naquela do ‘enquanto outubro não vem’.

Parece que o negócio é andar com fé – cega e surda -, a espera da redenção que virá ( ? ) daqui a dez meses. E vamos que vamos, bradando a pleno pulmões para uma legião mouca. Sempre que penso nessa situação nossa, me vem à cabeça uma imagem, que vi menina, não sei onde: um rebanho de ovelhas correndo, sem freio, em direção ao precipício. Nada muito original. Não sei vocês, mas como me identifico com essas ovelhinhas desenfreadas e suicidas.

Legal. Não é nada disso. Sou eu quem entendi tudo errado. É isso? Foi mal, então. É que cansei dessa esperança vazia, das pequenas grandes indignações diárias, que não desaguam em nada. Temos tretas para dar e vender, abastecer o mercado interno e exportar. Nós contra eles, eles contra nós, nós contra nós mesmo – aliás, somos ótimos nessa última modalidade. Se é para ficar inoperante, prefiro o ‘ se reúne para convocar, convoca para se reunir ‘ da esquerda de outros tempos.

Aí, num único dia, caixão e vela. Não ouço zoada na rua. Velório de defunto pobre é assim: silencioso e ordeiro. Sem muito choro, que é para não incomodar vizinho. Ou cortejo, para não atrapalhar o trânsito. E está lá o corpo do Rafael estendido no chão. Ou pendurado no tronco. Ou trancafiado numa cela com outros 50 Rafaéis. Como preferirem. Mas por quê o espanto? Afinal, é o lugar dele. Quem mandou nascer preto e pobre em um país branco OMO e ricooooo? Povo que não se enxerga e sempre quer mais.

Para os interessados, o sepultamento já tem data e hora marcadas. Não precisa pressa, será no final de janeiro. Até lá, dá tempo de todos se despedirem do Brasil, prestarem suas homenagens, dar condolências aos duzentos e tantos milhões de filhos. E, por favor, a família pede discrição, nada de faixas e cantorias. Nem mesmo aquela linda, com o refrão inspirado: ‘ não vai ter golpe, vai ter luta! Fica feio.Teve golpe e nã.o teve luta. Abafa.

Querem saber? Quando a coisa for séria, séria mesmo, para valer, me avisem. Cansei. Quem tiver fé cega, surda e.. xapralá, continue a acreditar. Quem sou eu para contrariar? Só que, enquanto isso, se perguntarem por mim, digam que fui por aí. Valeu.

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