Kultura Viramar

Ser itinerante: estar onde o público está

Por Rafaella Martinez. Com observações de Cida Cunha.

Era verão quando subimos o rio pela primeira vez e encontramos o caminho da mata lá em Cananéia, reduto caiçara que serviu de inspiração para nosso ônibus-teatro. Na ocasião o principal transporte utilizado foi o barco: conhecemos o Quilombo do Mandira, escutamos as muitas histórias dos povos ribeirinhos e guardamos nas paredes da memória todo aquele verde vivo que sonhamos em compartilhar com quem entrasse, nos meses seguintes, dentro do nosso Circular.


O outono nos encontrou na ativa: fantoches sendo sonhados para cá, taboas sendo coladas para lá, uma limpeza pesada e um grande adesivo colado, representando uma incrível viagem pelas histórias da mata. Nosso roteiro foi escrito à seis mãos e a montagem de nossa estrutura só foi possível com muitas mentes pensando juntas, em sintonia e amor. E foi lindo demais estacionar na porta da UME Lorena, lá em Cubatão, para nossa primeira apresentação. Foi uma sessão cheia: tinha até duas equipes de TV dividindo espaço no meio da garotada com suas câmeras e microfones! A onça fez um sucesso estrondoso e ver aquela multidão de sorrisos e olhares brilhantes deu ainda mais energia para fazer o Circular andar por outras 11 escolas da cidade.

 

Em Cubatão, passamos por um Conjunto Residencial que nos brindou com bons encontros. A fila era tão grande que tivemos que fazer – de muito boa grado – mais uma sessão! E no domingo nem a chuva forte que caiu afastou o público ansioso que foi nos assistir no Parque Anilinas.

A segunda parada foi mais longe: percorremos os 109 quilômetros que separam Santos de Guarulhos. E gostamos muito de falar de quilometragem, pois dessa forma podemos falar também de itinerância e sobre as fronteiras da arte. Cruzamos regiões para encurtar a distância entre a ‘cidade grande’ e as matas quase intocadas do Vale do Ribeira, maior área contínua de Mata Atlântica preservada do Brasil.

Foram lindos encontros na segunda maior cidade do Estado: teve manifestação da criançada querendo mais sessões do espetáculo, roda de autógrafos e muitas risadas nas seis instituições de ensino que visitamos.

E então o Inverno chegou e com ele retornamos para casa. Faltam palavras para escrever sobre a linda passagem descentralizada do Circular por Santos. Na verdade, ela começou um pouquinho antes, em abril, na Área Continental: foi com o coração cheio de alegria e saudade que estacionamos no Monte Cabrão e no Caruara. Reencontramos muitos amigos que fizemos por aquelas bandas na passagem do ‘Histórias do Mar’, nossa montagem anterior. Foi lindo ver que o tempo passou, mas manteve os olhos daquela criançada com um brilho indescritível.

 

De lá seguimos para a Zona Noroeste: nossas paradas aconteceram no Jardim Piratininga e no São Manoel. Foi nesse último bairro que recebemos os frequentadores das atividades do Centro Comunitário, que trabalha com crianças em situação de vulnerabilidade social. E as risadas do nosso público, alinhadas com a Praça Viva que pulsava do lado de fora do ônibus-teatro nos fez compreender a importância de ir até onde o público está.

O que nos move é a energia do amor e foi ele que nos levou ao Mercado Municipal, no Centro de Santos. Foi ali que, em parceria com a Associação dos Cortiços, recebemos de braços abertos as crianças que se permitiram ser crianças em tempos onde sonhar, por vezes, é algo difícil demais.

 

Nossa parada seguinte foi no Dique da Vila Gilda, região com mais de 10 mil moradores e que concentra a maior favela em palafitas no Brasil. Estacionamos no Arte no Dique e recebemos com muita alegria os frequentadores do espaço, os moradores do bairro e os alunos da UME Pedro Crescenti. “É mais do que teatro. Parece mágica”, disse uma das crianças da plateia… Ah, como isso faz tudo valer a pena!

Por fim, fomos dar uma espiada na Orla da praia, onde tivemos que improvisar um estacionamento de bicicletas, patinetes, skates, patins e afins. Nessa parada tivemos uma espectadora mais do que especial: dona Cibele, uma jovem senhora com 98 anos de vida, sonhos e histórias. A brisa do mar refrescou nosso Circular, que pôde depois dessa parada descansar um pouquinho antes da próxima cidade!

Uma mudança dos ventos nos levou para São Vicente, a primeira cidade do Brasil! Gostamos de ir até onde o público está e por esse motivo seguimos até a Área Continental da cidade. Eita ônibus viajante! Além de uma recepção linda do público, presenciamos o incrível encontro do pai da mata com sua mãe! Mas essa é outra história, a ser contada em outra ocasião. Demos um alô para Biquinha de Anchieta, nossa velha conhecida e para a jovem Rua de Lazer, no Gonzaguinha.

De lá, dissemos ‘olá’ para Praia Grande e três de seus bairros: Samambaia, Quietude e Sítio do Campo. Em Praia Grande recebemos em duas sessões crianças de diferentes abrigos da cidade. A troca foi repleta de sentido e significado. Ufa, ônibus lotado de sorrisos e histórias e de lá demos uma última parada no Festival Santista de Teatro antes de descansar.

 

A primavera começou nesta semana e com ela o reflorescimento da flora terrestre. E depois de paradas já programadas em Guarulhos e Taubaté, será também na primavera que o Circular conhecerá a mata que o inspirou: nossa temporada se encerra em Cananéia!

Queremos mostrar para o seu Chico Mandira que, em forma de bonecos de papel machê, nós reverenciamos a vida no quilombo. E queremos também passar horas conversando com os ribeirinhos que – como o fantoche do matuto que canta e encanta com seu violão – sabem viver em harmonia com a mãe natureza.

Nossa caixa mágica tem rodas e asas: ser itinerante nos permite estar – com qualidade técnica – onde o público está. Ser itinerante nos permite ter lindos encontros e registrar histórias incríveis nas paredes do nosso Circular, que por si só já é repleto de vivências.

 

Ao longo desses 42 dias de apresentações em diferentes espaços públicos das cidades nós tivemos contato com realidades distintas e escutamos muitas histórias. Algumas alegres e reconfortantes, com a da diretora da Escola Armindo Ramos, em São Vicente, que destacou que o projeto permite com que diversos temas delicados sejam abordados de forma lúcida para crianças, como na cena dos quilombolas, onde é possível fazer uma identificação com a questão do cuidar, do preparo da refeição e do alimento, que para eles representa afeto e os remete à família. Ou na passagem dos índios, cuja beleza e magia ensinam também a riqueza de nossas lendas. “O Circular: Histórias da Mata trabalha o imaginário da criança e essa beleza que eles estão vendo agora sobre nossos ancestrais se transformará em respeito na vida adulta”, disse.

Em Praia Grande, um rapaz destacou que “vendo pelo prisma social o projeto trabalha a palavra do momento: socialização. Esse processo que transforma o humano de um ser biológico para um ser social não acontece apenas quando o teatro fala de valores, ética, respeito à natureza e nossas origens, mas principalmente quando abre as portas do ônibus para professores, alunos, pais, empresários, transeuntes e vendedores de bala. Não há distinções”.

A viagem descentralizada do Circular nos mostrou, acima de tudo, o tamanho da carência cultural em algumas regiões da Baixada Santista e Guarulhos e a importância da arte itinerante. Muitos dos que entraram em nosso ônibus-teatro nunca haviam estado em uma sala de teatro convencional anteriormente. Proporcionar essa experiência para crianças, adultos e idosos tornou essa temporada rica de significados.

 

Fonte: blog Circular Histórias

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