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Sete de Fevereiro

Por Ailton Martins

Há três dias que estou revisitando memórias e conexões. Aquele segundo texto que lhe mandei do novo projeto, hoje eu resolvi abrir seu arquivo no computador e o ler um pouco. Ainda não pretendo revisá-lo. Mas por curiosidade fui consultar algumas partes. Como havia lhe dito, estou o deixando empoeirar. Li alguns trechos e perfaço em lhe dizer que ainda não consegui escapar das ciladas das palavras. Naquele primeiro texto produzido não havia como fugir de cada linha escrita, logo um pedaço de mim ficou nele, à medida que o tecia, tanto que, se à pena fosse escrito, certamente a tinta seria meu sangue. Contudo, esse novo texto, que está dividido em três partes, sinceramente não possuía a intenção de ver minhas artérias tão expostas, apenas usaria alguns olhares e observações como insumos, mas é complicado, ao abrir o arquivo e aleatoriamente ler uma página qualquer, notei que é impossível trabalhar com a unidade da língua escrita sem revelar-se, e finalizei apenas a primeira parte, sigo na segunda compreendendo que esconder-se por meio de vocábulos, é impossível, até porque a necessidade que nos imputa à escrever é constituída de partículas moleculares de quem somos; de nossa essência. A vida realmente é uma matéria estranha, misteriosa e quando menos esperamos nos surpreende.

Bom, caro amigo, eu estou seguindo e observando a vida, tentando resistir a esse momento que nos acertou em cheio. Esse período de tantos desdobramentos e incertezas, em que tudo se desmancha. Nas últimas duas semanas o calor tem sido insuportável, logo a minha ansiedade tem aumentado e, novamente eu tenho andado com dificuldades de concentração, honestamente, eu não sei bem se são as preocupações diárias, isto é, as contas em atraso somada a agonia de quando tudo isso passar, ou esse calor incomodando. Acho que é tudo. Não gosto do jargão que usam por aí nas peças publicitárias: “o novo normal”, considero um absurdo e um desrespeito com todos nós, pro inferno com esse novo normal! Estamos à beira de um colapso, com uma profunda crise sanitária acirrando a crise econômica, e essa frase criminosa sendo propagandeada.

Me pergunto se inopinadamente quem vocifera esse descalabro sabe quantos dias de suor custa o litro do leite dos trabalhadores? Do café, do feijão, do arroz, óleo, mistura… os economistas liberais terão suas artimanhas para justificar e escamotear a exploração. Mas só sabem mesmo o custo de, e da vida, quem tem calos nas mãos. E são essas as pessoas, o povo, nós; a classe trabalhadora que estamos sendo massacrados com essas crises. Somos nós que nos encontramos na berlinda, morrer de fome ou de vírus. Esse maldito Estado está se eximindo de suas responsabilidades. O desemprego aumenta, o preço da carne e da cesta básica também, e o número de óbitos por Covid está na casa dos 230 mil.
DUZENTOS E TRINTA MIL, DUZENTOS E TRINTA MIL, DUZENTOS E TRINTA MIL, DUZENTOS E TRINTA MIL, DUZENTOS E TRINTA MIL.

Será que estamos todos cegos e surdos? Que insensibilidade é essa que permeia? Como a gente vai resistir a isso? Eu não sei. Quisera um fuzil pra explodir a cabeça do presidente.

* Este texto faz parte de uma série de crônicas publicada pelo autor no seu perfil no Facebook.

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