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O resgate do Pão com Manteiga, mítica banda dos anos 70, com músicos de São Vicente, Praia Grande e SP

Por Jasper Lopes, BdF: Há algumas semanas o blog 2112, parceiro da Stay Rock Brasil, realizou uma entrevista com Diógenes Rondon, o Johnny, exímio guitarrista – e compositor – da mais ‘célebre desconhecida’ banda de rock clássico dos anos 70, o Pão com Manteiga. Para quem não sabe – e, realmente hoje quase ninguém sabe…- o Pão chegou a ganhar, em meados dos anos 70, a quarta colocação do prêmio Rock Brabo de São Paulo. O primeiro lugar levaram Os Novos Baianos (com Pepeu Gomes na guitarra e cordas), em segundo foi O Terço (com Sérgio Hinds na guitarra) e em seguida Os Mutantes (com Sérgio Baptista, irmão do mítico Arnaldinho, ex da Rita Lee, na guitarra). Vale lembrar que nessa época Os Mutantes tinham uma sonoridade de rock progressivo estilo Yes, já longe da primeira época, com Rita Lee e de estilo tropicalista. Já o Pão com Manteiga tinha um formato canção nas músicas, mas com um estilo muito próprio, que ia do progressivo ao quase hard rock, passando pelo folk-rock.

O Pão com Manteiga estava predestinado (esse era o plano da gravadora Continental, a mesma dos Secos & Molhados), a substituir os mesmos no sucesso do rock exótico nacional, com o racha dos Secos & Molhados e saída do Ney Matogrosso. Ocorre que, mesmo depois de ter já gravado uma espécie de clip para o Fantástico, o Pão com Manteiga segue a mesma sina, com a saída do Paulo Som, vocalista principal da banda. Como curiosidade, e algo pessoal, me tornei amigo do Johnny e do Pierre (o baixista e segunda voz, já falecido, e que morava no Japuí, em São Vicente, e era bombeiro), e o Johnny acabou sendo o terceiro guitarrista da banda que eu liderava, o Satanic, um estilo de ópera-rock com nuances de hard rock, rock’n’roll e progressivo, pois nosso primeiro guitarrista, o Luíz de Aquino, fora estudar violão clássico na melhor escola de música de Paris, aprovado em dificílimo concurso. Nosso guitarrista posterior ao Johnny, foi o também Johnny Hansen, do Harry, e que depois também integraria o Vulcano, após o fim do Satanic. Neste meio tempo, por coincidência, o Satanic chegou a abrir um show do retorno do Arnaldinho Baptista, ex Mutantes, no Teatro Igreja, no bairro do Bixiga, SP. Fui para a Argentina, Johnny, cuja profissão é a de topógrafo, foi para o Pará, e finalmente voltamos a nos reencontrar em Praia Grande, onde Johnny me relatou, místico, como sempre, que após uma fase crítica e depressiva na qual deixou de pegar na guitarra durante dez anos, sem querer caiu nas mãos dele um objeto de ferro que representava a clave de sol da pauta musical, e para ele isto foi um sinal que deveria voltar a pegar na sua antiga paixão, a guitarra. E, creiam-me, parece tocar melhor que nunca, pega qualquer solo de guitarra na primeira audição, seja Joe Satriani ou Steve Vai – fazendo jus a ter sido considerado o quarto melhor guitarrista do Brasil, pelo menos num dos prêmios mais importantes. E, no início deste ano, a surpresa: a Medusa Records resolve relançar o único LP do Pão com Manteiga, com elevada gramatura, e a mesma célebre capa, que provavelmente a Continental projetara segundo o mesmo estilo estético das duas capas da sua mais célebre banda, Os Secos & Molhados. Talvez o achado do símbolo de ferro musical, pelo Johnny, tenha sido realmente um prenúncio de que a história do Pão com Manteiga ainda não haveria terminado – reexistindo na geração do pão com nutella! Aqui a íntegra da entrevista concedida ao Blog 2112, em fevereiro:

 

Durante os anos 70 o cenário do rock brasileiro fervilhava de bandas maravilhosas que ainda hoje são cultuada e seus álbuns vendidos a peso de ouro. E nessa seleta lista incluímos a banda Pão com Manteiga que recentemente teve seu único álbum relançado pela Polysom. Aproveitando o momento bati um papo com Diógenes Rondon, seu guitarrista que na época usava o pseudônimo de Johnny.

 

  1. Após 44 anos o disco da Pão com Manteiga é relançado para deleite de muita gente que não podia adquirir uma cópia no mercado negro devido ao seu alto custo. Como surgiu o projeto de relançamento do disco?

Diógenes (Johnny). Justamente por essa procura ao disco, que se tornou difícil de encontrar por quem aprecia este álbum, e simultaneamente o surgimento, que foi de grande ajuda, por redes sociais. E, principalmente pela grande ajuda do Flávio Cigano, da loja Medusa Records, em parceria com a Polysom conseguiram o licenciamento da Continental para a reedição deste.

 

  1. A banda tem uma das histórias mais obscura da história do rock brasileiro. Pouco ou quase nada se sabe sobre o surgimento da banda, detalhes sobre a gravação do disco e o que levou a banda a terminar sumindo sem deixar rastros. Vamos começar com você falando sobre o surgimento da banda…

Diógenes (Johnny). Eu comecei na música tocando desde a adolescência, e que na juventude formei bandas de bailes e apresentações. Nessa ocasião fui procurado pelos fundadores (Pierre e Paulo Som) para ajuda-los nesta obra. E que já tinham firmado contato com o produtor Waldir Santos, que nos serviu de ponte para chegar a gravadora Continental. O disco foi lançado no início de 1976, e a banda encerrou neste mesmo ano.

 

  1. Uma curiosidade… porque Pão com Manteiga?

Diógenes (Johnny). Certa vez num ensaio, o Pierre (baixo) em resposta, sobre o porque de Pão com Manteiga para o nome da banda. “O pão, um alimento singelo, que está em todas as mesas do mundo, é também alimento espiritual, de paz, esperança e valores morais.”

 

 

2112. Quando o assunto é a música produzida pela banda ela divide opiniões. Para uns prog rock, para outros psicodélicos e outros uma mistura de folk com toques de música medieval. E você, como definiria a banda?

Diógenes (Johnny). Então, é isto que tornou este disco diferente, e que foi nossa intenção. Suscitou esta impressão e o remeteu para o público aprecia e o vê destas formas.

 

  1. Que bandas vocês ouviam e que foram fundamentais para o surgimento do Pão com Manteiga?

Diógenes (Johnny). Eu por ser guitarrista de banda de bailes, e que tinha a incumbência de tirar solos, arranjos e detalhes de músicas que eram tocadas, acabou por incutir influencias de bandas como Deep Purple, Black Sabath, Carlos Santana, Ten Years After, Free, Nazareth, e outros, e que não deixou de ser aprendizado.

 

  1. A banda surgiu em plena ditadura militar e é do conhecimento de todos que muitos foram os artistas que sofreram com a questão da “censura”. Quando não eram shows cancelados ou sabotados, tinha cortes ou proibição de músicas, espancamentos, prisões, deportamento etc. Vocês também passaram por coisas desse tipo?

Diógenes (Johnny). Felizmente não, como disse anteriormente, talvez pelo fato da pouca permanência na mídia.

 

 

  1. Como era trabalhar em meio a todo esse clima tenso?

Diógenes (Johnny). A época, talvez, tenha sido o fator dominante, preconceito também, por se tratar de músicas que a princípio não eram assimiladas com facilidade.

 

  1. Diógenes, você poderia falar sobre o processo de composição, pré-produção e gravação do álbum?

Diógene;s (Johnny). De certa forma conseguimos trabalhar a obra ao tempo desejado, preparando e gravando demos queç nos serviram de apoio e ingresso na gravadora.

 

  1. Vocês fizeram um bom uso de efeitos, teclados e guitarra que deixou o álbum bem homogêneo. Foram vocês mesmos que fizeram os arranjos?

Diógenes (Johnny). Os arranjos de guitarra foram todos feitos por mim, efeitos inclusive. Arranjos de teclado concordo que foram bem colocados. Todos os arranjos foram feitos por nós, componentes da banda.

 

 

  1. A gravadora em algum momento tentou opinar ou mesmo impor algo mais comercial ao som da banda ou vocês tiveram total liberdade no estúdio?

Diógenes (Johnny). A gravadora não opinou sobre tornar o álbum um pouco mais comercial, mas não teve nenhum componente presente nas mixagens e masterização.

 

  1. Micróbio do Universo, Cavaleiro Lancelot e Montanha Púrpura são peças maravilhosas que ficam entre viagens intergaláticas e caminhadas em bosques esfumaçados. O resultado final ficou magnífico!

Diógenes (Johnny). Com certeza, é a melhor definição para estas composições.

 

  1. A idéia de entremear a temática do mundo de Avalon com críticas a sociedade moderna foi o meio que vocês encontraram para falar tudo o que queriam e não serem censurados?

Diógenes (Johnny). Sim, e na época, ainda do período da ditadura (1964-1985) e que talvez pela escassa divulgação, passou despercebido. A música “Multi-átomos” tem um certo apelo, místico e político/social.

 

 

  1. Que bandas vocês ouviam naquele período e que foram fundamentais para a criação do Pão com Manteiga?

Diógenes (Johnny). Quando na época de ensaios e gravações, ouvíamos muitas bandas de rock, tais como Pink Floyd, Rush, Carlos Santana, Deep Purple, Yes, Kiss, Genesis e tantos outros clássicos.

 

  1. A capa com a foto do pão parece simples mas é bem significativo. Vejo algo como repartir boa música com todos… De quem foi a idéia?

Diógenes (Johnny). Acredito ter sido da própria gravadora em parceria com seus fotógrafos.

 

  1. Na sua opinião o álbum foi mal compreendido na época do seu lançamento? As vendagens foram boas?

Diógenes (Johnny). Não tenho registro desta informação.

 

  1. Vocês fizeram muitos shows? Qual era a reação do público diante de um som pouco convencional na cena da época.

Diógenes (Johnny). Em todas as apresentações que foram feitas, tanto ao vivo ou gravadas pareciam ser que foram bem aceitas pelo público que nutria música instrumental e progressiva.

 

 

  1. Que motivos levou vocês a decretarem o fim da banda?

Diógenes (Johnny). Com a saída do Paulo, e em seguida minha, por motivos familiares, a banda desincentivou.

 

  1. Nos anos que seguiram em algum momento a banda tentou se reunir? E agora relançamento do álbum existe uma possibilidade ainda que pequena da banda se reunir para fazer alguns shows para promover o álbum?

Diógenes (Johnny). Não mais existe esta possibilidade, pois os fundadores, (Pierre e Paulo Som) não mais estão entre nós. Talvez entrevistas, ou podcast possam elevar a este patamar.

 

  1. o microfone é seu!

Diógenes (Johnny). Agradeço a todos que se importaram a voltar em avivar na memória a obra da banda Pão com Manteiga. Em especial ao Felipe Zangrandi, que abrilhantou com a espetacular entrevista, na sexta edição do Trilhas Podcast. A grandiosa entrevista com o carismático Carlos Vaz, a ProgSky WEB ROCK RADIO STATION para o TOP PROG BRASIL. E agora para este conceituado blog, BLOG 2112, Carlos Antonio Retamero Dinunci, gratidão. Aos colaboradores Fabricio Bizu, da Psico BR Discos & Posters Psicodélicos da Psicodelia Brasileira, Henrique do canal You Tube “henriquebeira”, e tantos outros que de certa forma divulgam, mostrando em seu canais. Aos meus amigos Daniel Passiri e Walter Tadeu Ferreira, que muito me prestigiam. Ao meu grandioso brother, Flávio Cigano, da loja Medusa Records, que teve a exclusividade de lançar a Reedição Polysom do “LP Pão com Manteiga”. E finalmente à gravadora Polysom, que acolheu e regravou esta obra. À todos minha eterna gratidão.

 

Pão com Manteiga (1976) 

A1. Mister Drá
A2. Merlin
A3. Flor Felicidade
A4. Micróbio do Universo
A5. Montanha Púrpura
A6.  Multi-Átomos

B1. Serzinho sem medo
B2. Cavaleiro Lancelot
B3. História do Futuro
B4. A Feiticeira
B5. Fugindo do Planeta
B6. Virgem de Andrômeda

Formação:

Paulo Som (vocais, viola e violao);
Johnny (vocais e guitarra);
Pierre (baixo e vocais);
Gilberto (teclados e banjo);
Edilson Edisol (bateria e efeitos).

Dedico esta entrevista as memórias de Pierre e Paulo Som.

Aproveito para agradecer ao Diógenes pelo envio das raras fotos que ilustram a entrevista.

 

Postado por 2112 

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