A Movida Estudantil

Sobre a luta dos direitos dos Professores, 2018

Por Luana Chnaiderman do site passa palavra:

Acho que eu entrei nesse movimento escrevendo carta.

 

Na primeira carta que eu escrevi havia o problema de como assinaríamos. Éramos um grupo de professores que havíamos nos juntado em uma comissão para explicar às comunidades escolares o que estava em jogo e em risco na nossa convenção, explicar a recusa da patronal em negociar, quais eram as propostas de um lado e do outro. Escrevemos a carta e não sabíamos como assinar.

Éramos professores, e queríamos explicar que nossos direitos assegurados pela convenção trabalhista estavam ameaçados.

Professores o quê? Quais professores nós éramos?

(- só não vale assinar “professores fodidos”, uma amiga escreveu no whatssapp).

Professores Descontentes. Professores Presentes. Autoconvocados. Professores Preocupados, Voz Rouca. Chão de Giz.

Fizeram-se muitos grupos nesse movimento. Havia o grupo das famílias interescolas. O Grupo do Voz Rouca. Os Autoconvocados. A e B. Os grupos de professores de cada escola. E logo formaram-se os grupos B dos grupos de professores de cada escola. Os grupos das comissões. O pessoal da divulgação. O pessoal dos lambes. Os grupos das aulas públicas. O grupo dos textos. Os grupos dos bairros. Eu não queria entrar nessa.

Eu sou professora há vinte anos. Até Abril eu tinha somente um grupo de whatsapp no meu celular. Seis amigas, e nos comunicávamos para sairmos, beber e comer juntas. Não tenho nem grupo de família.

Na minha vida, eu só havia ido ao sindicato dos professores quando eu pedi demissão e fui demitida. Eu só percebi que Sinpro se escrevia com n seis meses atrás.

Eu uso a carteirinha do Sinpro, dá meia no cinema em alguns cinemas.

Todo ano ganho uma agenda. Nunca usei.

Quando fui demitida foi um grande alívio fazer a homologação da minha demissão no sindicato. Havia alguém ali que se certificaria de que todos os meus direitos estariam garantidos, muitos dos quais eu nem tinha consciência.

Depois, num emprego estável e numa escola que eu gosto, não pensei mais no Sinpro. Achava bonitas, as agendas.

Eu tive que estudar bastante, para entender o que é convenção trabalhista. O que é da CLT, o que é da convenção. Lia, estarrecida, as mudanças profundas na maneira de trabalho que a nova CLT permite e para a qual abre as portas. Durante o movimento, fui ao Sinpro semanalmente. E junto a isso, organizamos movimentos e caminhos de resistência independentes do sindicato, que inclusive forçaram o sindicato a agir com maior presteza, decisão e criaram uma enorme força independente e horizontal.

Nas trocas e trocas de mensagens, uma das primeiras que escrevi foi:

“Mas que cansaço estar aqui. A gente não vai conseguir nada. Será que vale a pena?”

E essa minha amiga me respondeu:

Olha, eu penso assim: pelo menos mais tarde, quando eu olhar para trás, eu vou me perguntar o que eu estava fazendo nessa hora, e eu saberei que estava lutando com dignidade. A gente vai perder. Mas a gente vai ter isso. A memória de que, nessa hora, lutamos.

Então, foi a partir daí, que eu entrei de vez no movimento.

E muitas coisas muito novas começaram a acontecer na minha vida: eu passei a frequentar assembleias e reuniões. E eu passei a escrever cartas.

Não escrevia cartas desde os meus quinze anos. Pus-me a escrever várias. E em muitas mãos. Eu que odeio trabalhar em grupo. Eu aprendi muito. Escrevendo cartas, com os meus companheiros. E companheiras. Aprendi com a professora que pedia que mais mulheres fossem à frente falar, porque chega dessas assembleias onde só os homens falam, onde somente os homens representam. Aprendi com colegas que sofreram dura repressão das escolas, das famílias que nos viam como comunistas loucos que afinal de contas só queriam ter mais férias que todo o resto dos mortais e que ainda assim vinham para as assembleias, reuniões, ainda assim resistiam.

Aprendi com alunos e alunas. Que no dia da aula no Largo Santa Cecília chegaram em coro cantando a amizade, o afeto, não mexam com meu professor. Aprendi com o professor no carro de som, tantas aulas dadas há tantos anos, emocionado, a voz embargada por tantos alunos, alunas e ex-alunas e ex-alunos ao lado, comemorando o que achávamos já ser a vitória. Eu olhei o meu colega e pensei: ali reside a dignidade.

Aprendi com pais e mães que também escreveram cartas, criaram grupos, cartas públicas, cartas à direção da escola, solidários, compadres, uma mãe que falou sou PJ e não quero isso para ninguém, outra que disse que nossa luta fazia parte da democracia, os grupos de famílias interescolas solidários aos professores, os grupos de famílias solidárias aos professores em cada escola, as cartas de apoio, as redes de solidariedade que se criaram, eu fico com sua filha, vamos fazer grupos, os professores vão parar. Aprendi que no diálogo, na conversa, nos debates e aulas públicas que fizemos, nas explicações que damos sobre o que estava em jogo, essas mesmas famílias podiam vir, e foram, para o nosso lado. E no segundo dia de paralisação, muitas estavam ali conosco.

Um dos primeiros debates foi organizado na escola em que eu trabalho. Havia uma das diretoras do Sinpro, um advogado, um sindicalista, cuma conversa sobre o que estava em risco na nova convenção.

Chovia. E um professor falou assim: se vierem vinte será um bom papo. Se vierem quarenta, dá um debate legal. Agora, se vierem oitenta, fazemos a revolução.

Vieram mais de cem.

E dali nasceu um dos grupos.

Aprendi, abismada, como é profunda a amizade e solidariedade de tantas e tantas pessoas próximas e queridas que vieram perto falar queremos ajudar. E deram dias de trabalho, pensamento, criatividade, produzindo ao final filmes, textos, conversas, cartazes.

Aprendi com os cartazes lindos que foram sendo produzidos a cada debate, aula, evento.

Aprendi a segurar a felicidade.

Aprendi a enfrentar uma classe patronal que retirou-se da mesa de negociação, recusando qualquer diálogo.

Aprendi a coragem. Com muitos colegas. Uma colega, na assembleia, ao dar o informe sobre a situação da sua escola, ficou rodeada por várias pessoas, não se conseguia vê-la e ela explicou: olha, gente, desculpa a cabaninha, mas eu não posso ser identificada. Colegas ameaçados, chamados à sala da direção, encontro às portas fechadas, ameaças veladas e abertas. Colegas que, ainda assim, vinham nas reuniões, nos dias seguintes e seguintes, para contar, relatar, dividir.

Aprendi com colegas que levantaram cinco da manhã para às seis estar na porta das escolas, distribuindo panfletos, para que os alunos lessem, para que as famílias lessem, entendessem o que estava em risco.

Um dia estava em uma escola e vi também a tensão dos professores com a panfletagem, mas não somos nós que estamos panfletando, diziam, e uma certa alegria: os alunos vão perguntar sobre o que está acontecendo, mas aí não somos nós quem começamos. O diretor quer saber o que é isso aí. A diretora quer falar com você na sala dela, veio a secretária avisar e logo duas companheiras foram juntas, para que ninguém se expusesse individualmente.

Aprendi sobre união em assembleias lotadas. Opiniões divergentes e discussões. Aprendi que parar uma escola por dia dá muito mais trabalho que simplesmente ir trabalhar.

Ao final, a convenção foi mantida integralmente. Ganhamos.

Se houvesse uma medida para a medida da vitória ela teria que ser abandonada.

Pois ainda que nos fatos objetivos não haja exatamente razão para júbilo, mas talvez somente um pouco de alívio, no campo de outras medidas, nossa vitória foi digna de festa na rua.

Aprendi que, se necessário, nós paramos. E pararemos novamente. E escreveremos mais textos e mais cartas. E conversaremos mais com nossos alunos e alunas. E nos uniremos em praças públicas, em bares, em casas do povo e centros culturais, em escolas e espaços que ainda abrirão as portas para nós, em esquinas. E conversaremos como nunca, e faremos festas, festivais, colóquios. E refletiremos sobre a história, assombrados pelos seus escombros, anjos de asas abertas. Pelo direito à vida digna. Ao exercício da liberdade. Pelo pensamento crítico. Pelo exercício da reflexão.

O mal só é banalizado quando sai de cena o pensamento crítico.

Cada escola uma trincheira.

Cada pessoa uma trincheira.

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