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Do Teatro do Kaos à poesia do lodo poluído do mangue, a epopeia de Ariel

A entrevista concedida pelo ator, escritor e multifacético artista da periferia da antiga ‘Vale da Morte’, Marcelo Ariel, ao entrevistador Jasper Lopes, do Baixada de Fato, nos idos de 2015, revista agora num momento crucial da cultura, da economia e da mesma sobrevivência da Humanidade, num mundo cada vez mais caótico e contaminado, literalmente.

 

Íntegra da entrevista concedida ao jornalista / ativista Jasper Lopes do Baixada de Fato

 

Abaixo a entrevista concedida ao Jornal Baixada de Fato, revisada e atualizada :

Pergunta: Ariel, Vc. é um artista polivalente, ao que sabemos começou como ator no Teatro do Kaos, em Cubatão, mas sua atuação abrange também apoesia, literatura, pintura, fotografia. O que te motiva ou inspira tanto?

Iniciei ali um inconcluso trabalho como dramaturgista ,no sentido que o continuador de Brecht , Heinner Muller deu para o termo, alguém que pensa o teatro como meio para discutir o problema humano, o problema do escravagismo que até hoje persiste como prática  na sociedade feudal industrial empresarial  do Brasil e outros conceitos, o teatro e a expressão artística em geral possuem uma vocação revolucionária que se perde quando o artista se converte em uma espécie de assessor. A função do teatro é instigar o pensamento revolucionário, quebrar os espelhos encantatórios que os domadores de mentes erguem diante dos nossos olhos,pois bem nada ,mais reacionário do que o teatro praticado nos dias de hoje,controlado pela burrice institucional-empresarial. Quanto ao que você chama de polivalência,  para mim não existem mais indivíduos, mas multivíduos, este é um conceito estudado pelo antropólogo italiano Massimo Canevacci, temos centenas dentro de nós, isto a poesia já dizia antes da antropologia e da psicologia. O que me motiva é a possibilidade de comunicação no sentido revolucionário, não interessando o meio utilizado, performance, pictórico, musical, na rede de computadores , tudo pode servir para comunicar o poema ou para ampliar o poder dos escravagistas contemporâneos contra o qual temos de lutar.

2 – É muito relativo o quanto as tendências regionais influem num artista de determinada região geo-cultural. No seu caso, o quanto de ti é universal – ou mesmo intimista – e o quanto tem a ver com a Baixada Santista,com as raízes caiçaras local?

Vejo a região como um pequeno e incomodo apêndice para a Serra do mar, a zona ecossistêmica de vida autêntica , havia uma enorme autenticidade e poesia quando não haviam cidades antes da época da invasão e antes do período dos massacres e da grilagem geral, quando os índios ocupavam a maioria da zona territorial, poetas são como índios, seres sempre expulsos do senso comum e neste sentido de imersão em minhas origens ancestrais índias, negras, egípcias e ciganas que posso me tornar universal ou multiversal para ser mais preciso,porque existem universos dialogando entre si e não um único universo. Voltando para o erro das cidades onde nascemos e morremos sem encontrar o nosso paraíso,esta zona chamada de ‘ baixada santista’ , um termo horrível, é um sucessão de erros urbanísticos, sociológicos e econômicos porque ela deriva do escravagismo e é até hoje sofre com as consequências destes erros históricos. Porque um parque industrial na encosta da Serra do Mar? Por que esta industrialização violenta e estapafúrdia? Isto não seria conceitualmente uma continuação da invasão-espoliação das nações coloniais do início do Brasil ? Estamos habitando zonas de massacres.

3 – O que te marcou mais em suas obras anteriores – seja para ti, ou para o público? E o que vem agora? Para onde ruma tua arte e o que te atrai?

O livro mais recente Retornaremos das cinzas para sonhar com o silêncio que saiu pela Editora Patuá dialoga ainda com os massacres, os próximos serão O Rei das vozes enterradas pela Editora Córrego de SP , Olivrodasárvores a sair pela Pharmakon,Com o Daimon no contrafluxo a sair pela Editora Patuá e Como ser o negro a sair pela Azougue, lancei ainda um livro para a Col. Encontros da mesma Azougue que reúne as melhores entrevistas do compositor santista Gilberto Mendes, não paro de trabalhar, trabalho até sonhando, costumo dizer que nunca durmo, apenas sonho. Não sei para onde vai “minha arte que não é minha” , sei que meus livros se eu tiver sorte serão encontrados na nuvem ou em algum sebo do século 30, que será o século marcado pelo começo da humanidade que como sabemos em nosso século ainda não existe. Existem lampejos, faíscas de humanidade, o constante são os massacres, genocídios e distrações do que é extraordinário, por exemplo nesse momento enquanto você, seja você quem for, meu irmão ou irmã estão lendo isto, índio, negros, animais e árvores estão sendo massacrados, o mais novo massacre inventado é o dos professores como ocorreu no dia 29 de abril no Paraná. Precisamos de uma insurreição total e geral em todas as áreas e reformas fundantes de novos modos de viver a vida.

4 – É verdade que a cultura local, de Santos, Baixada e Litoral paulista, sofre de um marasmo, uma certa pobreza, um certo desinteresse de público? Falta interesse também de incentivos municipais, ou mesmo de outros setores da sociedade civil, como o setor empresarial?

Que Cultura local? A última coisa realmente autêntica que ocorreu depois do R.A.P.e do Funk  que serão arte daqui há 100 anos,foi o aparecimento de uma poesia e literatura na região, mas estas são expressões que são mantidas nos guetos pelo poder, mesmo com a internet,existem guetos na internet também. O setor empresarial é burro e investe praticamente NADA. O resto são as esmolas do governo central estatal e o SESC. Desenvolvo um trabalho resultante de uma parceria entre a Secretaria de Cultura de Santos e a ong Concidadania, onde dou aulas de criação literária em um curso livre e aberto para a comunidade, na Estação da Cidadania, antiga Estação Sorocabana, isto é um fósforo aceso, mas poderíamos fazer muito mais.

 

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