Colunistas Márcia Simões Lopes

Quarentena, arroz doce e memória ancestral

Por Marcia Simões Lopes.

 

Semana inteira com vontade de comer um doce; normalmente quando isso ocorre vou a algum lugar, para comer, justamente para não acumular doce em casa. Mas como a orientação é para permanecer em casa, hoje eu preparei o arroz doce sonhado. Não ficou tão gostoso como é o doce da minha mãe; mas ficou bom. Enquanto preparava o arroz doce surgiam pensamentos dos períodos de guerra, quando as pessoas inventavam pratos de comida, normalmente com as sobras que tinham dentro de casa – nos períodos de guerras a escassez do alimento é geral. Então comecei a pensar no arroz doce, que basicamente é feito de arroz, açúcar, leite e canela. Ingredientes populares, comuns de ter em casa. A canela deve ter surgido da idéia da pessoa proteger-se do frio, aquecendo o corpo em um período quando muitos viviam precariamente.

Na revolução francesa, por exemplo, a população que vivia nas ruas acumulava pães velhos e restos de queijo e com uma panela velha se reunia em torno da fogueira para se aquecer e preparar aquilo que posteriormente veio chamar-se “fondue”. Um prato considerado elegante, caro, que teve origem no caos francês.

A vontade do arroz doce deve ter partido das minhas raízes de Portugal. Minha avó, mãe da minha mãe costumava fazer esse doce. Minha mãe faz arroz doce até hoje, para servir aos filhos, principalmente. O arroz não é um alimento típico das terras deste continente; é um alimento “importado” ou seja introduzido em nossa cultura nativa.

Ontem, conversando com meu sobrinho que está com os planos, os estudos e tudo mais em suspenso, dizia a ele sobre como foi a vida dos bisavós dele, que diretamente ou não fugiram das guerras, na Europa, e vieram para o Brasil em busca de esperança. Se afastaram de suas raízes, do pouco que tinham e formaram uma família em outro continente. Deve ter sido triste, difícil e eles devem ter reunido coragem e determinação, para realizar seus propósitos. Nós estamos aqui para contar a história! Dizia isso ao meu sobrinho, que nossos avós e bisavós mostraram que tudo passa, e aquilo que parece impossível não existe, e que tudo vai acontecer como deve ser.

Preparando o arroz doce e pensando nos tempos de guerra … em diálogo com a memória!

 

Márcia Simões Lopes é jornalista, escritora, pensadora, estudiosa e praticante da Cura Nativa – Caminho Vermelho desde 2002.

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